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              Coisas de menino e coisas de menina

              Quais as implicâncias de limitar as brincadeiras das crianças de acordo com o gênero e por que os adultos devem ajudar a criar um ambiente mais igualitário.
                                                                                                                                   Texto Natália Negretti /Revista NA MOCHILA-Escolas do Bem

              Rosa é cor de menina, azul é de menino. Meninas brincam com boneca, meninos brincam com carrinho. Meninas são princesas, meninos são super-heróis. A lista de definições de o que são coisas de meninas e de meninos é extensa. No entanto, cada dia mais esses padrões de comportamento estão sendo revistos e questionados, afinal, brincar deve ser livre de limitações. “O direito ao brincar está diretamente relacionado à liberdade. Brincar tem como definição mais pura uma atividade em que a criança se engaje livremente”, explica a psicóloga Ana Oliva Marcílio, da Avante – Educação e Mobilização Social.

               

              Desconstrução total

              Criança nenhuma nasce sabendo qual brinquedo ou cor é para menino ou para menina. Por tanto, é bastante simples definir que ela é livre para brincar com qual brinquedo quiser e se vestir da cor que bem entender, certo? Não exatamente. Os conceitos de gênero que limitam suas escolhas estão enraizados na sociedade há muitos anos, passados de geração para geração, criando-se mitos que dividem o que é certo para meninas e, consequentemente, errado para meninos, e vice-versa.

              Assim, para se começar a pensar em uma infância mais igualitária, é preciso pensar primeiro nos adultos que rodeiam as crianças. “As desconstruções destes mitos e amarras de gênero construídas por longos anos e que se tornam naturalizadas precisam ser feitas no cotidiano das escolas, nas organizações da sociedade civil e governamental, nas famílias, universidades, etc”, destaca Ana Paula Rodrigues, coordenadora do Programa de Redes e Incidência Política da fundação Xuxa Meneghel.

              O contato dos pais e cuidadores desde os primeiros meses do bebê pode ser carregado de pré-conceitos que reforçam a diferenciação entre meninos e meninas. Isso não significa que há uma educação errada. Os adultos passam aquilo que eles acreditam ser o certo. Por isso, o início da mudança começa na reflexão sobre seus valores e não a imposição de novos. “A experiência que temos nos projetos é de que não adianta tentarmos impor que o menino também pode usar rosa ou a menina azul, ou qualquer cor que escolher. Muitas vezes, isso fere valores caros para a família e pode criar afastamento. O que fazemos é provocá-los a refletir, a duvidar e a questionar o que está posto há séculos na nossa sociedade, respeitando o tempo de cada um”, conta Pâmela Menicke, assistente social da Fundação Xuxa Meneghel.

               

              “Você já pensou quando ele crescer?”

              Essa é uma frase bastante comum de se ouvir quando uma criança brinca com aquilo que a sociedade acredita não ser indicado para o seu gênero, como um menino com bonecas ou uma menina jogando bola. Por trás dessa apreensão, existe o “medo” da homossexualidade futura, como se um brinquedo ou uma cor fosse capaz de definir a orientação sexual da criança. “Pesquisas já comprovaram que objetos e conceitos inerentes à infância (brinquedos, vestes, opção por brincadeiras, etc) não exercem influência sobre a orientação sexual dos adultos”, aponta Maria Aparecida Salmaze, presidente do Instituto de Educação Infantil da Organização Mundial para Educação Pré-Escolar (OMEP). “Essa discussão tem por trás um aspecto forte e extremamente perigoso, que é o preconceito com aquele que aparentemente foge do que está convencionado como ‘certo’ em nossa sociedade”, complementa Ana Paula.

              No entanto, uma vez que tal pensamento é uma herança cultural, não basta somente explicar aos pais que a orientação sexual de seus filhos não será definida por meio de simples escolhas; é preciso buscar descobrir o motivo deste receio. Por isso, famílias e profissionais que atuam com as crianças e jovens precisam refletir sobre essas questões para que não haja o estímulo ao preconceito.

              Além disso, é importante que os adultos se lembrem que a criança tem um contato intenso com o mundo da fantasia, principalmente nos primeiros anos de vida. “A criança está em uma etapa da vida onde ela está experimentando tudo, para melhor poder compreender o mundo ao seu redor”, enfatiza Ana Marcílio. “Um bom exemplo são as crianças que calçam os sapatos dos pais: elas estão, na realidade, ‘ensaiando’ a vida adulta, considerando como espelhos os pais, independentemente de calçar o sapato da mãe ou do pai”, complementa Maria Aparecida.

               

              A diferença nos brinquedos

              Você já parou para reparar que a maioria dos brinquedos “de meninos” envolvem criatividade e ciências, enquanto os “de meninas” focam na maternidade e no trabalho do lar? Tal diferencial pode ajudar a reforçar a caracterização do papel da mulher e do homem na sociedade, isto é, de mulheres como responsáveis pelas atividades domésticas e os homens como provedores. “Os brinquedos e as brincadeiras estão ligados a um contexto cultural. Nos jogos lúdicos, a criança promove uma imitação daquilo que ela observa, definido pelos adultos e seus comportamentos. Assim, esta divisão de brinquedos e brincadeiras também é uma questão de desempenho de papéis na sociedade, que precisa ser desconstruída de forma natural e cotidiana”, afirma Pâmela.

              Quando adultos e crianças tiverem em mente que meninas podem ser no futuro a profissional que quiser, assim como os meninos, não haverá mais sentido em diferenciar os brinquedos por gênero. Atualmente, há organizações que realizam uma grande pressão aos fabricantes de brinquedos para que seus produtos sejam mais neutros. Por que, por exemplo, não há fotos de meninos e meninas juntos na maioria das caixas dos brinquedos?

              Enquanto isso, os especialistas explicam que pais e cuidadores devem estimular a brincadeira livre, de acordo com os gostos de cada criança, inclusive, fugindo de brinquedos prontos. “Estimular a imaginação da criança e ajudá-la a construir seus próprios brinquedos, como avião de papelão e bonecos de lata é uma boa alternativa à imposição do grande mercado voltado à infância”, opina Maria Aparecida.

               

              Historinhas diferentes

              Se nos corredores das lojas de brinquedos fica nítida a diferenciação entre o que é de menino e de menina, nos livros infantis também é bem parecido. A maioria das histórias voltadas para o público feminino é sobre princesas – frágeis e sonhadoras – e para o masculino é sobre super-heróis – fortes e destemidos. Salvo algumas exceções, os contos reforçam a visão da mulher como passiva e dependente do homem, enquanto este é livre e destemido.

              Não é errado sua filha gostar de princesas, nem seu filho gostar de super-heróis, mas é preciso que os adultos tenham cuidado para que as crianças não se sintam obrigadas a se encaixarem em padrões determinados. “É importante que os pais tenham clareza que os vestidos de princesas também podem despertar curiosidade nos meninos, pois são cheios de detalhes e cores. E que os superpoderes dos heróis também podem fascinar as meninas. E que nenhum dos dois tem problema algum. Incentivar que meninos e meninas passeiem por esses dois universos é saudável, pois é pela brincadeira que a criança elabora conexões, aprende, convive, interage, cria e elabora conceitos para a vida”, explica Ana Paula.

              A discussão não é a questão que meninos e meninas não podem ter suas características particulares, mas sim, que eles devem ser livres para desenvolver sua criatividade, tendo acesso ao maior número possível de brinquedos e brincadeiras. “É importante entender que, embora haja diferenças entre homens e mulheres, muitas dessas diferenças são construídas pela sociedade e não são parte de nossa natureza ou de nossa constituição biológica”, frisa Pâmela.

              “O importante é conversar mais, respeitar as individualidades, para mostrar na prática que também devemos ser respeitados. Temos que transmitir e viver valores capazes de gerar mais amor, menos exclusão e menos ódio”, Ana Paula Rodrigues, coordenadora na Fundação Xuxa Meneghel

               

              Nossas fontes

              Ana Paula Rodrigues, coordenadora na Fundação Xuxa Meneghel

              Ana Oliva Marcílio, psicóloga e coordenadora na Avante – Educação e mobilização social

              Maria Aparecida Salmaze, presidente da OMEP/BR/MS

              Pâmela Menicke, assistente social na Fundação Xuxa Meneghel

               

              FONTE:

              Artigo desenvolvido pelo projeto NA MOCHILA, que em parceria com as escolas oferece uma revista por bimestre aos pais de alunos do ensino Infantil e Fundamental I. Acesse aqui o projeto NA MOCHILA

               

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