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              Você ensina seu filho a ser ético?

              Dois importantes pensadores brasileiros falaram à NA MOCHILA sobre o aprendizado dos códigos de conduta desde a primeira infância.

                                                                                                                                  Por Lucy De Miguel / Revista NA MOCHILA

              Você está em uma festa em um buffet infantil e observa seu filho na paciente fila do Arvorismo. De repente, a criança que estava por último é arrancada de seu lugar e colocada, pela mãe, como primeira da fila, passando à frente de todos os outros que haviam chegado antes. A indignação das outras crianças da fila é notória. Eles reclamam, protestam. A mãe, com sua arrogância, ignora. Quem poderia decidir ali o que estava certo ou errado era a monitora. Mas esta, sabe-se lá por qual motivo, não se opõe. E aquela criança aprende, em um local lúdico e divertido, que é correto levar vantagem em detrimento do outro. “Minha mãe me ensinou a furar fila. Que legal!”, é o que vai ficar registrado em sua mente. O perigo disso tudo é: se a criança não aprende em casa, a vida ensina. Daí o erro que muitos pais cometem em querer proteger sua cria.

              Fatos como este são corriqueiros, vemos o tempo todo. Para quem desconhece a importância da ética na convivência humana, é fácil compreender a enorme “falta de educação” daquela mãe, que certamente não aprendeu a ser ética e deve cometer esta e outras irregularidades em desrespeito ao outro e à sociedade. Nem precisa pensar muito: nos deparamos com tais exemplos de desrespeito todos os dias. São aquelas pessoas que largam o carrinho do supermercado no meio do estacionamento ou atrás do carro ao lado, param nas vagas de gestantes ou de idosos (pra não ter que andar muito, afinal, não tem ninguém olhando...), compram algo e não honram com o compromisso de pagar. Ou aquele colega de trabalho que é seu amigo, mas que não perde a oportunidade de te prejudicar na empresa. Afinal, ele também quer ser promovido, assim como você.

              A revista NA MOCHILA conversou com dois dos mais importantes pensadores brasileiros da atualidade – Clóvis de Barros Filho e Mário Sérgio Cortella – para entender a responsabilidade dos pais e da escola em transmitir os valores éticos para as crianças.

              A palavra ética tem origem grega, “ethos”, que significa “caráter”. “Ética é aquela perspectiva para olharmos os nossos princípios e os nossos valores para existirmos em sociedade. É impossível pensar em ética sem pensar em convivência”, explica o filósofo e educador Mário Sérgio Cortella. Ou melhor, é o conjunto de princípios e valores de conduta que uma pessoa ou um grupo de pessoas tem.

              Daí vem a pergunta: a partir de qual idade devemos ensinar uma criança a respeitar os códigos de conduta ética, para vivermos em harmonia na sociedade? Segundo o professor de filosofia da Universidade de São Paulo, Clóvis de Barros Filho, ética é algo que se aprende a partir do momento que a criança começa a socializar com as outras. “Sem dúvida é na infância o melhor momento para a criança entender o que a ética significa. Eu não posso dizer se é na família o lugar ideal, porque muitas vezes os pais são agentes de deformação moral. Através de seus exemplos, eles prestam um desserviço ético, porque querem fazer triunfar suas ambições de qualquer jeito, porque não respeitam o coletivo a que pertencem, porque estão sempre tentando levar vantagem. E ainda a criança recebe em casa um péssimo modelo de aprendizado ético”, afirma.

              Frase de destaque

              “Educar é restringir, é definir privações, é direcionar a energia vital numa certa direção em detrimento de outra. Se deixarmos uma criança solta, ela será guiada pelos seus instintos.”

                                                                                                                                                                  Clóvis de Barros Filho

              Ética se aprende na escola?

              Para outro importante pensador e educador, Mario Sérgio Cortella, existe uma diferença entre educação e escolarização. Educação é a formação de uma pessoa. Escolarização é um pedaço da educação. “A tarefa de educação dos filhos é da família em primeiro lugar, e do poder público de forma secundária. A escola faz escolarização. Por isso, se a família não cumpre aquilo que precisa cumprir, a escola não dará conta. É preciso fazer uma parceria com as famílias, de modo a também formar os pais. Porque uma parcela dos pais está perdida, ela não sabe que tem obrigação. Ela vive uma situação de submissão com os filhos”, explica.

              Cortella dá o exemplo daquela família que chega ao restaurante e pergunta ao filho de 8 anos aonde ele quer sentar, o que ele quer comer, o que ele quer fazer. Para ele, embora seja uma forma carinhosa de os pais tratarem a criança, é algo que a deseduca. “É óbvio que eu sou contrário a bater, a espancar, mas não sou contrário de maneira nenhuma a uma educação que seja firme. Ser firme não é espancar. É a fala, é a autoridade, é colocar a mão no ombro com delicadeza, mas com firmeza, para a criança sentir a pressão, sem machucar.

              Pode parecer pouco, mas há uma diferença significativa na formação de um caráter. Fazer perguntas deixando que a criança escolha não é uma forma carinhosa de educar. Ela é acovardada. É a ditadura infantil. Resultado: parte dessas crianças é formada em famílias que não têm autoridade sobre ela. A criança dorme na hora que quer, come o que deseja, sai a hora que quer. Não pode ser assim”, ressalta.

              E se não há restrições na família, a criança vai encontrar obstáculos a essa falta de limites na escola. “Mas aí, quando a criança é contrariada ou precisa seguir regras, ela parte pra cima do professor. Nós nunca tivemos tantos casos de violência de alunos contra professor como estamos tendo agora. Porque o educador é o primeiro adulto na vida de uma criança a exercer a autoridade. E autoridade não é autoritarismo. Autoridade é a responsabilidade com mando.

              Essa autoridade tem que ser exercida. Tem pai que reclama que o professor deu falta porque o filho faltou, ou porque o filho leva lição de casa. O problema disso é que nós estamos formando uma geração mais fraca, que não pega no serviço”, completa Cortella.

              Clóvis de Barros também exalta o trabalho do educador com a necessidade de ser restritivo. “Educar é restringir, é definir privações, é direcionar a energia vital numa certa direção em detrimento de outra. Se deixarmos uma criança solta, ela será guiada pelos seus instintos, por aquilo que Freud chama de ‘principio de prazer’. Ela buscará maximizar seu prazer e isso pode tornar complicada a sua existência no mundo social. Todo trabalho de civilização é um trabalho de definição das condições em que a satisfação pode acontecer. E a educação dos pais é uma parte importantíssima desse processo civilizatório, que é um processo de direcionamento das energias vitais. Quando esse trabalho não é bem feito, a criança tenderá a sofrer fora de casa as punições que deveria ter sofrido no ambiente familiar”, diz.

              Frase de destaque

              “Nós nunca tivemos tantos casos de violência de alunos contra professor como estamos tendo agora. Porque o educador é o primeiro adulto na vida de uma criança a exercer a autoridade.”

                                                                                                                                                                     Mário Sérgio Cortella

              Os valores se perderam?

              Há quem diga que antigamente as pessoas eram mais educadas, que a sociedade era mais ética e que estes valores de respeito e de integridade estão se perdendo com o tempo. Mas Clóvis de Barros Filho não concorda com esta teoria. “A história da humanidade é a história da exploração, da humilhação, do massacre, da opressão... portanto, não dá pra acreditar que um dia nós tínhamos valores excelentes e que estes se perderam. Eu tenho a impressão de que nós nunca tivemos uma convivência adequada. Sou muito mais confiante no futuro do que no passado”, esclarece.

              Para o filósofo e professor, o passado não é um bom exemplo. “Temos a chance de fazer com que amanhã a convivência seja melhor do que hoje. Mas eu também não acredito em transformações radicais, do dia pra noite. Acredito que as coisas podem ir melhorando devagar, de degrau em degrau, como verdadeiros grãos de areia. Hoje, por exemplo, em lugares fechados, é muito pouco provável que alguém tire um cigarro pra fumar, o que há dez anos era normal. Então eu acho que a convivência melhorou nesse quesito”. E ainda completa: “A ética é a crença de que a convivência de amanhã possa ser melhor do que a de hoje. Portanto, é um esforço coletivo de aperfeiçoamento da convivência”, diz.

              Como ensinar ética aos filhos?

              Os dois pensadores concordam que é função da família ensinar princípios e valores que serão a base da personalidade, da conduta do indivíduo. E se o mundo ou as pessoas não são éticas como deveriam, entra aí a questão dos valores morais. “O mundo que nós vamos deixar para nossos filhos depende muito dos filhos que nós vamos deixar para este mundo. E que filhos nós vamos deixar?”, indaga Cortella.

              Quem pensa que esses valores serão construídos fora de casa, está enganado. “Uma criança que tem diabetes, por exemplo, deve ser criada fechada em casa para não correr o risco de comer o que não pode ou deve ser instruída pelos pais de que, quando fora de casa, coma somente aquilo que não fará mal para ela?” pergunta Cortella. “É claro que não podemos criar nossos filhos em uma redoma. O mesmo vale em relação à conduta. Temos que ensinar a eles como viver neste mundo”, completa.

              Construir uma personalidade ética não é tarefa fácil para os pais ou para os educadores, porém, pode e deve ser feita sem arrogância ou prepotência. Cortella orienta para que os pais prestem mais atenção aos filhos, principalmente os jovens, que são avessos a qualquer tipo de autoritarismo. “Quando o filho chega em casa e você pergunta: ‘E aí, filho, o que você aprendeu hoje na escola?, isso é auditoria. Se você quer saber isso, de uma forma que ele vai gostar, você deve perguntar: ‘E aí, filho, o que é que você pode me ensinar hoje?’ A diferença é que crianças e jovens adoram ensinar. Os valores que um filho terá são os valores que nós passarmos para ele”, explica.

              Clóvis também destaca a importância da socialização na introdução da ética na educação das crianças. “Desde os jogos mais infantis, a criança deve ser instruída a respeitar a convivência. Esses jogos infantis, com a participação de mais de um, são momentos importantíssimos para que a criança possa saber até onde vai a pretensão dela e até onde vai a preservação do próprio jogo, que pressupõe a aceitação de certas regras. E esse já é um excelente passo para a introdução da ética”, afirma.

              Frase de destaque

              “A ética é a crença de que a convivência de amanhã possa ser melhor do que a de hoje. Portanto, é um esforço coletivo de aperfeiçoamento da convivência.”

                                                                                                                                                                  Clóvis de Barros Filho

              Pais x falta de tempo

              Na atual rotina familiar, na qual pai e mãe trabalham fora e possuem uma cobrança cada vez maior em sua vida profissional, a relação com a educação da criança acaba ficando comprometida pela própria falta de tempo – sem falar na falta de energia. “Os pais hoje educam menos por uma questão de administração das suas forças vitais. Tanto o marido como a mulher se dedicam demasiadamente aos seus projetos profissionais, ao seu trabalho, ao ganho do sustento, que acabam delegando a tarefa de educar os filhos. E de certa maneira não querem assumir o ônus e o custo de impor sanções aos filhos”, explica Clóvis de Barros.

              E é aí que mora o problema. “Muitas vezes, as exigências da vida profissional fazem com que os pais tenham que abrir mão de gastar energia para entrar em atrito, para advertir, para dar bronca nos filhos. Tudo isso custa, é pesado, é cansativo. Então, ‘deixa pra lá’. Essa ideia do ‘deixa pra lá’ é particularmente nefasta, porque a criança precisa ser preparada para interagir em sociedade. E essa preparação tem que ser feita no seio da família”, esclarece.

              Escolhas certas

              Uma grande preocupação para os pais é saber se a educação que seus filhos estão recebendo, tanto dentro de casa como fora dela, dará a eles uma base sólida para que saibam fazer escolhas corretas. A criança começa a escolher por volta dos 6 a 7 anos, mas as responsabilidades vão ficando cada vez maiores na adolescência: o primeiro beijo, a primeira relação, a faculdade, o primeiro gole, o primeiro cigarro, as companhias... Certamente, se você ainda não parou para pensar nisso, fica o alerta do professor Clóvis: “As escolhas tendem a ser tanto melhores quanto mais sofisticado for o repertório daquele que escolhe. Nós nunca poderemos inibir as pessoas de fazerem certas escolhas”, afirma.

              Para ele, cabe aos pais dar as condições para que as escolhas sejam consistentes. E isso tem a ver com trajetória, com o repertório, com experiências de vida. São as experiências de vida que permitirão as escolhas. “Elas não saem do nada. Nesse sentido, todos nós que educamos uma criança somos responsáveis por abrir o leque de suas experiências, e fazendo isso estaremos também melhorando as suas referências para futuras escolhas”, finaliza.

              Frase de destaque:

              “Personalidade ética é construída quando nós prestamos atenção, quando nós olhamos para o jovem com o olhar dele, e sem arrogância.”

                                                                                                                                                                     Mário Sérgio Cortella

              “Tudo o que não puder contar como fez, não faça”.

              Famosa definição de ética do filósofo Immanuel Kant

              Nossas Fontes:

              Clóvis de Barros Filho, jornalista, advogado, palestrante e escritor. É professor de Ética na Universidade de São Paulo (USP)

              Mário Sérgio Cortella, filósofo, doutor em Educação, é palestrante e autor de vários livros sobre Educação e Ética. 

               

              Fonte:

              Artigo desenvolvido pelo projeto NA MOCHILA, que em parceria com as escolas oferece uma revista por bimestre aos pais de alunos do ensino Infantil e Fundamental I. Para saber mais sobre o projeto, clique aqui.

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